Pedagogia: como ensinar a ser professor a distância?

Maria Cecilia, fundadora do Pró-Saber SP e doutora em Educação, pontua os desafios sobre o ensino a distância e a formação de professores.

Sempre me emociono no Dia dos Professores, celebrado no domingo dia 15 de outubro.

Amo receber os parabéns dos amigos, familiares, colegas de trabalho e sobretudo dos ex-alunos.

Jamais te esqueci. Você é uma das pessoas mais importantes na minha formação. Você me deixava cantar na frente da turma as músicas que eu já inventava naquela época. Lembro que fiz uma música em sua homenagem

T. aluno 3º ano, 1992.

É o dia que também reconheço aqueles/aquelas professoras que me marcaram e que fazem ou fizeram diferença na minha vida.

Tive um enorme privilégio de me formar Professora trabalhando com teoria e prática juntos. Estudava a teoria no curso de tempo integral do Magistério e, depois, meus professores me observavam aplicando na sala de aula com crianças, o que eu tinha aprendido na teoria. Apontavam com firmeza e amorosidade aquilo que eu precisava melhorar. Aprendi na troca com meus colegas a ouvir e a compartilhar a minha prática, aprendi com meus professores a mediar os conflitos que apareciam em nossa sala de aula. Aprendi estratégias de gestão de grupo na medida em que vivenciava diferentes práticas criadas por nossos professores para gerir nossa turma. Reconheço o privilégio desta formação de excelência que experimentei.

A formação no Magistério a nível de Ensino Médio não existe mais. Nem todos os cursos eram de qualidade como aquele que eu cursava.. Nos anos 90, a preocupação em melhorar o ensino nas escolas do país propôs uma mudança na LDB ( Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) tornando necessário cursar a graduação em pedagogia ou fazer as licenciaturas para quem quisesse ser professor. 

Hoje, quase 30 anos depois, ter acesso ao ensino superior é um sonho para muitos, mas ainda é um privilégio para poucos. E neste contexto, e embrulhado pela narrativa da democratização do ensino, as graduações de ensino 100% à distância tem se multiplicado, especialmente na área da Pedagogia.

Neste mês, uma pesquisa do TPE revelou que hoje 65% das pessoas que estão se formando em pedagogia estão realizando sua graduação 100% por meio do Ensino a Distância (EAD) e 85% dos novos ingressantes já estão 100% EAD.

Antônio Gois em seu artigo no Globo do dia 16/10/23 esclarece que uma das possíveis razões dos cursos EAD terem preços tão acessíveis (a partir de R$ 99,00) é a relação de professores por alunos em sala de aula. Em média 171 alunos para um professor. 

Como garantir a qualidade da formação dos professores brasileiros neste contexto? 

Como se formar 100% a distância e ser professor da escola básica de alunos 100% presenciais?

Fazer intervenção e promover diálogo e troca com os alunos em uma turma com 30 alunos já é um desafio, como fazê-lo à distância e com tantos alunos na tela?

Vivemos uma complexidade no nosso país. De um lado a falta de oportunidades e o difícil acesso ao ensino superior e  de outro, uma baixa qualidade na formação dos nossos professores que pode ser agravado por um ensino 100% a distância.

É possível tornar-se um bom professor nestas condições ? É possível aprender sobre o sujeito aluno, sua integralidade, a complexidade do ato de ensinar e aprender sem a experiência de interagir, de se integrar em um grupo de estudantes mediados por um professor Presente? Como amparar o professor quando ele precisa planejar, construir conhecimentos com seus alunos, mediar os conflitos de um grupo?

O MEC também está estudando permitir que os cursos de Direito, Enfermagem, Odontologia e Psicologia possam ser cursados em EAD. Os Conselhos representativos destas classes mandaram notas mostrando a insatisfação e a indignação: “o ensino a distância nos cursos de Saúde representa um grave retrocesso, com precarização da qualidade da formação e, consequentemente, da assistência ofertada a população.”

E o que dizer sobre a formação na graduação de um professor? Não seria também um grave retrocesso?

Não podemos aceitar e esperar em silêncio nos queixando que a educação avança de forma tão lenta no nosso país.

Temos que nos juntar e nos unir aos professores na luta por uma formação de qualidade, na valorização de sua carreira e nas condições dignas e justas de trabalho em cada escola e em cada sala de aula.

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