Esses dias assisti duas vezes a um documentário da Netflix chamado “A Conspiração Consumista”. Nele, ex-diretores de grandes empresas — de moda a eletrodomésticos — revelam como estratégias são criadas para manter a população comprando sem parar. O filme também mostra como peças e aparelhos são produzidos em escala gigantesca, sem considerar o ciclo final de cada item.
Fiquei impressionada com a quantidade de celulares, tênis e roupas fabricados diariamente. A indústria da moda, por exemplo, é a segunda mais poluidora do mundo, ficando atrás apenas da petrolífera. Segundo a Global Fashion Agenda, mais de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis foram descartados nos últimos anos.
Com o avanço do fast fashion e das compras rápidas pela internet, o consumo ficou ainda mais acelerado: basta um clique no sofá e o produto chega até você. Esse ciclo de “consumir por consumir” é movido pela chamada dopamina rápida — o hormônio do prazer que vicia o cérebro a querer sempre mais. Outro ponto que me chocou foi ver para onde essas roupas e eletrônicos vão parar: milhões de peças descartadas acabam em mares e aterros de países pobres, poluindo não só o meio ambiente, mas também comunidades locais.
Trazendo esse debate para a realidade de Paraisópolis, percebemos como o consumo acelerado também chega até aqui. A comunidade é cheia de lojas de roupas, outlets e até grandes varejistas que oferecem preços acessíveis e entrega rápida, estimulando esse mesmo ciclo de compra e descarte. Mas será que a consciência sobre o impacto ambiental desses produtos também acompanha esse movimento? Muitas vezes, não. O destino de roupas e objetos que deixam de ser usados ainda é, em grande parte, o lixo comum, sem preocupação com reaproveitamento ou reciclagem.
Por outro lado, já é possível enxergar alternativas acontecendo. Uma delas é o Bazar do Pró, que dá novo ciclo a peças em bom estado que poderiam ser descartadas e que hoje temos iniciativas que oferecem alternativas reais, como o Bazar do Pró. Diariamente, recebemos doações de peças em bom estado que poderiam ser descartadas, mas que passam a fazer parte de um ciclo mais consciente. Segundo o Sebrae, em 2023 já existiam mais de 118 mil brechós ativos no Brasil, e a expectativa é que até o fim de 2025 cerca de 20% do guarda-roupa dos brasileiros seja composto por peças seminovas. É nesse movimento que acreditamos: o bazar como prática de economia circular, que ajuda o planeta, fortalece comunidades e dá novo valor ao que já existe.
Aqui no Pró, todo o dinheiro arrecadado no bazar é revertido para a continuidade dos nossos programas voltados à leitura, brincadeira, alfabetização e desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens. Foi uma alternativa que surgiu ao percebermos que muitas pessoas não sabiam para onde doar peças e objetos em bom estado que já não usavam mais.
Tenho um amigo, por exemplo, que é presença garantida no Bazar do Pró. Foi por meio dele que ele conseguiu mobiliar uma sala de estúdio musical: comprou uma mesa de madeira enorme por apenas R$ 50, além de cadeiras e outros itens de qualidade com preços super acessíveis para a comunidade.
Assim, fortalecemos projetos, cuidamos do planeta e ampliamos o acesso a bons produtos em Paraisópolis.Se você ainda não assistiu “A Conspiração Consumista”, recomendo muito. E mais: que tal separar peças que não usa mais e doar para uma organização com propósito?





