Opinião

Desenvolvimento institucional também se faz olhando para fora

Arte em fundo roxo com o título Desenvolvimento institucional também se faz olhando para fora, a categoria Opinião e o logotipo do Pró-Saber São Paulo

Há alguns meses, uma parte importante do meu trabalho no Pró tem sido organizar nossa área de Mobilização de Recursos.

Isso significa olhar para metas e resultados, claro, mas tem significado principalmente olhar para processos, responsabilidades, relacionamento com parceiros, integração entre áreas e para a forma como cada uma das nossas diferentes estratégias de mobilização se conecta.

Por isso, um dos pontos que mais me chamou atenção no encontro promovido pelo Instituto Porto foi uma afirmação trazida por Rodrigo Alvarez durante sua formação sobre desenvolvimento institucional e captação de recursos:

“Captação de recursos não é um departamento isolado: é um sistema institucional que conecta missão, confiança, governança, finanças e relacionamento.”

Parece simples. Mas muda bastante coisa quando levamos essa afirmação a sério.

Mobilizar recursos depende de uma organização que saiba explicar por que existe e qual impacto produz. Depende de projetos consistentes, de informações financeiras confiáveis, de comunicação, de relacionamento e de uma direção que entenda que sustentabilidade financeira não é responsabilidade exclusiva de quem trabalha diretamente com captação.

Ao apresentar algumas das condições para uma organização captar recursos de forma sustentável, Rodrigo organizou essa reflexão em quatro grandes dimensões: identidade e impacto, gestão e governança, comunicação e transparência e modelo de financiamento.

Enquanto acompanhava a apresentação, foi interessante fazer um exercício bastante particular: olhar para essa lista e reconhecer nela muitas das escolhas que temos feito no Pró.

Nos últimos meses, temos reorganizado processos, separado estratégias de relacionamento com pessoas físicas, empresas e outras formas de engajamento, estruturado melhor nosso CRM, revisto jornadas de parceiros e buscado integrar cada vez mais Comunicação e Mobilização de Recursos.

Não porque exista uma fórmula pronta para captar melhor, mas porque captar melhor exige organização.

E aqui cabe uma pequena explicação sobre a falta de fotos neste texto. Estou há alguns dias com as costas travadas e conciliar prestar atenção na conversa com administrar a dor já estava sendo uma tarefa suficientemente complexa. O celular acabou ficando de lado.

No lugar das fotos, resolvi trazer algumas falas da apresentação do Rodrigo que ajudam a ilustrar as reflexões que ficaram comigo, além das impressões da Andréia Barros, minha colega de área, que também participou do encontro. No fim das contas, acho que elas cumprem melhor esse papel do que algumas fotos minhas tentando encontrar uma posição minimamente confortável na cadeira.

“Gostei bastante das reflexões trazidas durante o encontro, mas também da oportunidade de estar com outras organizações, conhecer um pouco mais de suas experiências e perceber desafios que muitas vezes são comuns ao nosso trabalho. Essas trocas ajudam a ampliar nosso olhar e a pensar sobre o que fazemos a partir de outras perspectivas.”
Andréia Barros – Mobilização de Recursos do Pró

Foi justamente outra parte da formação que acabou me levando para o que considero o principal ganho daquele encontro.

Em determinado momento, fomos convidados a fazer dois movimentos: olhar para dentro e olhar para fora.

Olhar para dentro significa entender nossas capacidades, nossos recursos, nosso histórico e até aquilo que o material chama de “DNA organizacional”. Olhar para fora significa acompanhar pesquisas, conversar com especialistas e observar organizações que enfrentam desafios parecidos com os nossos.

Foi nesse segundo movimento que o encontro ganhou mais força para mim.

O Instituto Porto reuniu organizações diferentes, com histórias, tamanhos e formas de atuação também diferentes. E estar no mesmo espaço permitiu conhecer um pouco mais do trabalho realizado pelo Instituto Ana Rosa, na Vila Sônia, pela Aliança de Misericórdia e pelo Vocação.

Esse tipo de encontro cria uma oportunidade que nem sempre aparece na agenda corrida das organizações sociais: conversar com quem está enfrentando, de outras maneiras, questões que também atravessam o nosso trabalho.

Porque olhar para organizações congêneres não precisa significar procurar modelos para copiar.

Pode significar descobrir uma pergunta que ainda não fizemos. Conhecer uma solução que alguém encontrou para um problema parecido. Perceber uma dificuldade que é compartilhada. Ou simplesmente ampliar nossa referência sobre as diferentes formas de construir transformação social.

“Como se financiam organizações semelhantes à sua? Quem são os parceiros? Estão explorando oportunidades diferentes de nossa organização que valeria a pena considerar?”
Rodrigo Alvarez

Isso vale para captação, mas certamente não termina nela.

Uma das ideias apresentadas durante a formação foi a de que uma organização sustentável precisa construir relações duradouras com seus diferentes públicos. Acho que podemos ampliar um pouco essa ideia. Sustentabilidade também passa pelas relações que construímos dentro do próprio setor.

Parcerias entre financiadores e organizações são fundamentais, mas também são importantes os espaços em que as próprias organizações podem se encontrar, trocar experiências e conhecer melhor o trabalho umas das outras.

Saí do encontro promovido pelo Instituto Porto pensando justamente nisso.

Organizar processos, construir indicadores, diversificar receitas e planejar a captação são partes fundamentais do desenvolvimento institucional.

Mas levantar a cabeça de vez em quando e olhar para quem está construindo ao nosso lado também é.

Por isso, fica meu agradecimento à Janiffer Santos e à Larissa Czelusmack, do Instituto Porto, pelo convite, pela recepção e, principalmente, por criarem esse espaço de encontro entre as organizações.

E já podem guardar meu lugar no próximo. Se tudo der certo, inclusive, estarei lá com um pouco mais de mobilidade e bem menos dor nas costas.

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