É de tarde. Em uma das salas do Pró Ler & Brincar, programa que atende crianças de 04 a 07 anos, a educadora Mara Almeida desenvolve um projeto de poesias. Para aquela atividade, ficou definido que a música “Dona de Mim”, da cantora IZA, e um poema de Lázaro Ramos, “Caderno de Rimas do João”, seriam apresentados pelas crianças. Mas, antes da apresentação, elas deveriam interpretar os textos e trazer suas próprias visões sobre a música e o poema.
Para Mara, a experiência foi muito significativa, pois permitiu que os alunos compartilhassem opiniões, interpretações e reflexões sobre as mensagens de cada obra.
“Foi interessante observar o envolvimento das crianças na análise dos textos, demonstrando sensibilidade e espírito crítico. Alguns se identificaram mais com poemas que abordavam temas sociais, enquanto outros preferiram textos que exploravam emoções e sentimentos pessoais. Essa diversidade de perspectivas enriqueceu o processo e destacou a importância da escuta atenta e do respeito pelas diferentes opiniões.”
A atividade também contribuiu para o desenvolvimento da oralidade e da capacidade de argumentação: todos tiveram a oportunidade de defender suas escolhas e justificar suas opiniões. Ao final, a turma selecionou coletivamente os textos que melhor representavam o projeto, fortalecendo o sentimento de pertencimento e colaboração.
Ao conduzir a discussão coletiva para a escolha dos textos do sarau, Mara percebeu o quanto esse momento foi rico para as crianças, e também para ela, como educadora. Ao trazer a música de IZA e o poema de Lázaro Ramos, sentiu que estava oferecendo não apenas textos, mas portas para novas interpretações e diálogos significativos.
“Essa diversidade de olhares me mostrou o quanto cada criança traz sua própria bagagem, seu jeito de ver o mundo, e como o espaço de escuta e respeito é essencial para que todas as vozes sejam ouvidas.”
Com a autonomia e a defesa de suas escolhas, as crianças construíram confiança e senso crítico. Ver a turma decidir coletivamente os textos que representariam o projeto reforçou para Mara a certeza de que aprender é, sobretudo, um processo de colaboração e pertencimento.
No encontro, ela propôs um momento de leitura e escuta atenta. Pediu que observassem o texto, lessem os versos e, em duplas, fizessem algumas reflexões para depois compartilhar com o grupo o que haviam entendido.
Esse momento permitiu observar como cada criança se conecta de forma única com as palavras. Catarina, por exemplo, disse que gostaria de apresentar Dona de Mim porque a personagem da música é “muito forte” e a lembrava dela mesma.
Arian, por sua vez, se encantou com o trecho em que a cantora diz que “se perdeu pelo caminho, mas não falha, não”. Ele comentou que não sabia exatamente o que significava, mas imaginou que era como se a cantora soubesse o que precisava fazer para chegar onde queria. Para Mara, foi um momento singelo, porém profundo, que mostrou como a interpretação nasce também das sensações e imagens que o texto desperta, mesmo quando a criança não encontra palavras para explicar.
“Essas falas reforçam para mim o quanto a leitura e a escuta compartilhada são caminhos para cultivar a sensibilidade, a empatia e o pensamento crítico, além de fortalecer a expressão oral das crianças.”
Para a educadora, a experiência reforçou que o trabalho com poesia e música não é apenas literário, mas também social e afetivo: proporciona às crianças oportunidades de se reconhecerem, se expressarem e construírem sentido coletivamente, tornando o aprendizado mais significativo e prazeroso.