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O que a Maria de hoje diria para a Maria de 2003?

Se eu pudesse conversar comigo há 19 anos, lá em 2003, quando desejo e indignação eram o que me moviam na gestação de um espaço de educação para crianças de 3 a 6 anos em Paraisópolis, eu me daria algumas dicas para tornar a jornada futura mais leve:
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Se eu pudesse conversar comigo há 19 anos, lá em 2003, quando desejo e indignação eram o que me moviam na gestação de um espaço de educação para crianças de 3 a 6 anos em Paraisópolis, onde não haviam vagas para o ensino infantil, eu me daria algumas dicas para tornar a jornada futura mais leve:

O (não) apoio ao Projeto não é ainda uma derrota: captar recursos para o projeto com empresas ou pessoas físicas é uma maratona e não uma corrida de 5k. O fato de não sermos acolhidos, escolhidos por uma empresa tem várias razões. Às vezes o Outro precisa de mais tempo, dados e pesquisas para entender e sentir como combater a desigualdade com você. É possível contribuir nesse processo, sem pressa, e tudo ficará mais leve quando essa parceria acontecer e quando esta jornada for um desejo das duas partes. Não desista de construir esse processo.

O nosso desassossego não pode desequilibrar o outro: sinto o quanto a curiosidade, a busca por conhecimento, o acerto nas decisões, o rigor da prática e a velocidade para implementar novidades e mudanças são decisivas para colocar nossos sonhos de pé. Mas, cuidado! Isso é nosso e pode não estar presente no Outro. Respeitar os movimentos e o tempo de todos os envolvidos sem abrir mão da nossa Chama, é um exercício em que aprendemos a sermos mais cuidadosos. Ir mais devagar não quer dizer ir menos longe.

Conte mais uma vez: Nunca falei muito do meu trabalho para as pessoas. Eu sinto como se fosse um trabalho como todos os outros. Seja por timidez, seja por achar desnecessário. Não coloco holofote, como poderia, no fazer nosso de cada dia. Não caia nessa armadilha da invisibilidade.Todo trabalho é único. Hoje entendo que compartilhar as nossas conquistas e os desafios nesta construção incansável para um mundo melhor traz reconhecimento para o trabalho e parcerias que fazem as coisas acontecerem. Portanto, compartilhe sempre sua jornada. Ela também pode inspirar outros a seguirem esse caminho da transformação social.

Um olhar para dentro e outro para fora: hoje fica fácil falar sobre a abertura do Pró, depois de tanto tempo na estrada. Mas acho que teria sido importante conhecer outros empreendedores sociais e conversar com mais organizações no início do Instituto. Aprendemos (quase) tudo sozinhos nos primeiros anos. No ensaio e erro, nas mudanças de rota, na choradeira… e tudo poderia ter sido mais leve se tivéssemos conversado com mais gente na largada.

O que parece o fim, é só uma bifurcação: Por várias vezes, parecia que não havia saída para os dilemas que vivemos: falta de financiamento, dificuldade de retenção de talentos, reprovação em editais, contexto social na comunidade conturbado… Muitas vezes sentimos que estamos sem saída e no escuro. Dá desânimo. Mas a saída está lá. Precisa resgatar o seu propósito, a força que te move, renovar seus votos e tateando encontrar uma saída que não seja a mais óbvia, nem a mais fácil. Respira e se conecta com você. Lembre-se que no outono, quando as folhas das árvores caem, não é o fim. É o nascimento de frutos saborosos que estão a caminho.

Então, Maria, recapitulando, aprenda a lidar com o não, com o desassossego, com o poder da comunicação. Sentir a escuridão faz parte desta grandiosa jornada que você vai trilhar. Vai ser gloriosa. Aperte o cinto e aproveite cada etapa.

E você, Maria dos 30 anos, o que diria para a Cinquentona aqui?

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