Mudar as perguntas para transformar juntos: a potência de construir em rede

Como o último encontro do Instituto Ambikira propôs um novo olhar sobre o impacto social a partir da escuta e da colaboração com as organizações apoiadas.
[07 - 26] - Encontro Ambikira

O cuidado com a transformação social costuma ser medido pelos resultados que conseguimos alcançar. Mas, às vezes, o maior avanço acontece quando mudamos as perguntas que fazemos.

Na última semana, participei, junto com a Jéssica Martins, da área de projetos do Pró, de um encontro promovido pelo Instituto Ambikira, que reuniu todas as organizações apoiadas pela instituição para compartilhar histórias, revisitar trajetórias e, principalmente, construir coletivamente os próximos passos dessa rede.

Para mim, esse encontro também teve um significado bastante pessoal.

Meu primeiro contato com o que hoje é o Instituto Ambikira aconteceu há cerca de 12 anos, quando eu ainda fazia parte da equipe da Gastromotiva. Naquela época, a instituição ainda era conhecida como Instituto CSHG. Desde então, acompanhei, mesmo que à distância em alguns momentos, sua evolução, a mudança de identidade, o amadurecimento da estratégia e a forma como passou a compreender cada vez melhor seu papel no fortalecimento das organizações sociais.

Estar ali, agora representando o Pró-Saber SP, foi também uma forma de olhar para essa caminhada.

O encontro começou com uma visita guiada à exposição Viva Viva Escola Viva, no Instituto Tomie Ohtake. Divididos em grupos, tivemos a mediação de Leonardo Ribeiro, da Associação Inspirar-te, organização que utiliza a arte, a educação e a cultura como ferramentas de inclusão social, transformação e ampliação de repertórios.

Leonardo Ribeiro, da Associação Inspirar-te (foto de Laio Rocha)

Depois da visita, o Instituto Ambikira apresentou os resultados de um amplo processo de pesquisa que serviu de base para reorganizar sua atuação. A partir desse estudo, sua carteira de apoio passa a ser estruturada em seis grandes frentes: Primeira Infância, Pós Escola, Casa Forte, Emprego e Renda, Prototipagem e Pesquisa.

Confesso que um detalhe me chamou atenção. Entre todas as frentes, gostei especialmente da escolha do nome Casa Forte. É uma expressão simples, mas que traduz muito bem iniciativas voltadas ao fortalecimento familiar. Às vezes, encontramos termos que explicam uma estratégia inteira em apenas duas palavras, e acho que esse é um desses casos.

O Pró-Saber SP segue fazendo parte dessa história por meio do apoio ao Pró Ler & Brincar, dentro da frente de Primeira Infância.

Mas o ponto alto do encontro, para mim, veio na sequência.

Mais do que apresentar uma nova estrutura de atuação, o Ambikira compartilhou uma mudança na forma de compreender o seu (e o nosso) impacto social.

Em vez de desenvolver uma metodologia internamente e apresentá-la pronta para as organizações, o instituto decidiu construir esse processo junto delas.

Nos próximos meses, representantes de cada frente temática participarão de encontros presenciais para discutir, adaptar e validar quais indicadores realmente conseguem traduzir as transformações produzidas em seus territórios. Isso significa reconhecer que quem vive o dia a dia dos projetos também precisa participar da construção das ferramentas que irão avaliá-los.

Esse movimento muda bastante coisa.

Além de produzir indicadores mais conectados com a realidade de cada organização, ele fortalece a capacidade que temos de compreender o nosso próprio trabalho. Não apenas para prestar contas a um parceiro, mas para aprender com o que fazemos, aperfeiçoar processos e comunicar melhor o impacto que geramos.

“Entre os diversos temas apresentados no encontro, o que mais me chamou a atenção foi a decisão de construir, de forma coletiva, o novo modelo de indicadores de impacto social de cada frente temática: ao invés de definir uma metodologia pronta, o instituto convidou as organizações parceiras a participarem da criação e validação dos indicadores que irão orientar a avaliação dos resultados. Essa escolha reconhece que quem atua diariamente nos territórios possui conhecimento fundamental para identificar as transformações geradas e como elas podem ser medidas de maneira mais significativa. Saí do encontro com a convicção de que iniciativas como essa fortalecem a confiança entre financiadores e organizações da sociedade civil e demonstram que a construção compartilhada do conhecimento é um caminho essencial para gerar avaliações mais consistentes e conectadas à realidade dos territórios.”
Jéssica Martins – Analista de Projetos do Pró

Esse me parece ser um dos maiores ganhos desse processo. As ferramentas que nascerem dessa construção poderão fortalecer não apenas a relação entre o Ambikira e as organizações apoiadas, mas a forma como cada uma delas enxerga e comunica sua própria transformação.

Isabel Aché Pillar, do Instituto Ambikira (foto de Laio Rocha)

“Fazer parte desse movimento vai muito além de observar; estamos profundamente imbricados nesse processo. Para mim, é um misto de emoções, mas, acima de tudo, uma alegria imensa pela oportunidade de criar, inovar e construir de forma colaborativa, em rede. Saber que contamos com parceiros sólidos e consistentes, dispostos a dar as mãos tanto nos momentos altos quanto nos baixos, traz um sentimento de profundo amparo. Saio desse encontro com a certeza de que temos muito a fazer, mas com a felicidade de saber que temos um espaço legítimo para pensar e construir juntos. É isso que nos move: caminhar lado a lado, respeitando cada território, cada profissional e cada família.”
Isabel Aché Pillar – Superintendente do Instituto Ambikira

Ao final do encontro, Isabel compartilhou um trecho de Coração de Estudante, de Milton Nascimento.

“E há que se cuidar do broto, pra que a vida nos dê flor e fruto.”

Achei uma escolha muito bonita.

Não apenas pela mensagem da música, mas porque Ambikira é uma palavra de origem indígena que significa justamente broto. Depois de ouvir essa lembrança, ficou difícil não fazer essa associação entre o nome do instituto e o cuidado com processos que levam tempo para florescer.

Quando sentei para escrever este texto, outra lembrança voltou.

A primeira obra que vimos na exposição.

Os Bichinhos Guarani, de Adilson Karai, José Wera Tataendy, Wera Alcides e Karai Valdomiro Campos.

À primeira vista, todos os animais pareciam seguir na mesma direção.

Mas bastava olhar um pouco mais para perceber que não.

Alguns caminhavam em sentidos diferentes.

Lembro de uma cobra que chamou bastante a atenção justamente por isso. Ela parecia romper aquele movimento coletivo. Só depois fui percebendo que ela não estava sozinha. Outros animais também apontavam para direções diferentes, embora de forma mais discreta.

Acho que essa imagem resume muito bem o que vivemos naquele encontro.

As organizações compartilham um mesmo objetivo. Caminhamos na mesma direção porque acreditamos em uma transformação social construída pela educação, pelo fortalecimento dos territórios e pelas pessoas.

Mas isso não significa olhar todas para o mesmo lugar.

Cada organização enxerga problemas diferentes, faz perguntas diferentes e encontra respostas diferentes. E isso não enfraquece a caminhada coletiva. Pelo contrário. É justamente essa diversidade de perspectivas que torna a construção muito mais rica.

Saí do encontro com a sensação de que esse novo momento do Ambikira vai muito além de uma reorganização de sua carteira de apoio.

É um convite para que as organizações aprendam mais sobre si mesmas, produzam conhecimento a partir da própria prática e construam, juntas, formas cada vez mais consistentes de compreender o impacto que geram.

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Se o título te chamou atenção, te convido a continuar lendo para ver que, se a gente se mexer, isso pode se tornar real.