Sem categoria Organização das Salas de Aula

Publicado em

20 de outubro de 2020

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*Texto escrito pela Coordenadora Pedagógica Fernanda Renner

Organização da sala

A organização da sala de aula reflete muito sobre como a instituição de educação pensa e faz o seu trabalho pedagógico. As atividades diárias e a maneira como a sala está montada estão diretamente ligadas ao currículo, pois é ele que norteia as escolhas e as práticas de toda a equipe: que materiais fazem parte do acervo da sala, como estão dispostos no ambiente e de que maneira o professor e as crianças os utilizam no cotidiano. Tudo isso nos conta sobre a concepção de aluno, escola e educação que escolhemos para nos orientar.

Cadeiras organizadas em fileiras e com crianças em lugares estáticos são resquícios de uma educação que acreditava que o professor deveria ser o centro das atenções. Somente ele era capaz de ensinar. Todo o conhecimento estava nele, que o transmitia aos alunos. Era esperado que eles assistissem às aulas e recebessem todo o conhecimento passado pelo professor. Não se levava em conta a possibilidade da construção do conhecimento através da troca e da interação.

No Pró-Saber SP, acreditamos que a educação é dialógica, ou seja, o professor é um mediador entre os alunos e o conhecimento – e que também aprende enquanto ensina. Este é um princípio defendido pelo educador Paulo Freire, que se contrapõe à educação bancária, onde o professor deposita no aluno o seu conhecimento. Entendemos também que os alunos são sujeitos, e que por isso estão no centro do processo de ensino e de aprendizagem. Como sujeitos, eles pensam, opinam, decidem e também constroem o conhecimento.

Dessa forma, priorizamos em nossas salas uma organização dialógica também. Os nossos espaços são cuidadosamente pensados para serem lúdicos, dinâmicos e com muitos elementos que contemplem a infância e o brincar, além da leitura e da escrita. Os móveis, os murais forrados de vida e de histórias, os brinquedos, os livros, a lousa, o tatame para a roda. Tudo mostra que a organização proposta está a serviço de uma educação onde a criança é um sujeito de direito.  

Entendemos que uma sala de aula é organizada de forma dinâmica quando possibilita às crianças aprenderem de diversas maneiras, e através de diferentes configurações. As cadeiras, por exemplo, são usadas de acordo com a intencionalidade pedagógica do professor.

Se a atividade a ser realizada é um trabalho em equipe, o educador dispõe as mesinhas e cadeiras em pequenos grupos de 4. Se quer fazer uma produção de texto, ele pode agrupar as crianças em duplas, de acordo com as suas hipóteses.

Se precisa observar o que cada criança sabe sobre determinado conteúdo, pode pedir para que se sentem individualmente. As crianças também se sentam em roda, no chão, para conversar e organizar coletivamente a rotina no início do dia, ou no famoso cineminha para ouvir história depois de brincar no parque. Cada necessidade pede uma disposição diferente.

Esse jeito de pensar e organizar o espaço possibilita que as crianças trabalhem em diferentes agrupamentos, relacionem-se entre elas e com o professor na troca de saberes, desenvolvam a habilidade de colaboração e aprendam a gestar o próprio grupo. Todas são responsáveis e autoras da sua formação e aprendizado. O conhecimento não está apenas na mão do professor.

Quando o assunto é organizar e preparar as salas para receber as crianças, há um grande checklist a ser feito. Como o nosso foco está na leitura, na escrita e no brincar, cuidamos para que todos os elementos dessa engrenagem sejam pensados nos mínimos detalhes. Recebemos as crianças com uma minibiblioteca montada, para que estejam sempre inseridas na cultura letrada das histórias, além de gibis e revistas. 

Também arrumamos os murais com alfabeto, tarjas com nomes das crianças, lista de nomes do grupo, calendário e outros cartazes. À medida em que elas chegam, esse universo passa a ser habitado, e as histórias de cada uma povoam os murais com desenhos, textos e fotos. Esse é um importante dado dessa organização: os trabalhos das crianças precisam estar expostos nas paredes – precisam contar sobre a vida dessas crianças, que são as personagens principais dessa narrativa.

       “Quando as crianças, no início do ano, entram na sua sala de aula, as paredes estão totalmente brancas… não há nada dependurado nelas, não existe nenhum material exposto, apenas o essencial para uma organização mínima: bancos e coisas assim… Então, começamos a habitar esse espaço, sentir o corpo atuando nele… E aí, no final do ano, há um céu no teto, todo pintado ou cheio de recortes, mil coisas… Um vão minúsculo, na parede, foi descoberto, e está lá demonstrado, apontado… A sala tem e reflete tudo o que aconteceu durante o ano, nas aulas de matemática, de alfabetização, de informação sobre planetas etc… Estão lá, em destaque, o quadro das descobertas feitas e o quadro das dúvidas levantadas, porque conhecer não é só saber… É duvidar! Desta relação, que é de vida, é que vai se criando e se habitando esse espaço!” Madalena Freire

As nossas salas também são ambientes lúdicos, preparados para o faz-de-conta. Se a proposta do dia é montar uma grande casinha, ou um consultório médico, a disposição das mesas e cadeiras muda e rapidamente construímos o ambiente ideal para a brincadeira acontecer. É possível amarrar tecidos e fazer cabanas para que as crianças tenham possibilidades infinitas de criar e imaginar. Todas as salas também têm minicozinha com comidinhas, kit de bonecas e caminhas. Também há canto com jogos, bichos, carrinhos, pistas e blocos de construção. Tudo isso pensado para que se possa explorar as inúmeras formas de expressão e representação. O brincar aqui tem a mesma importância da leitura e da escrita. 

Sabemos que a organização externa dos espaços reflete na organização interna das crianças. Isso quer dizer que, se oferecemos um ambiente acolhedor, lúdico e especialmente preparado, elas também conseguem se organizar ao saber onde estão os materiais, e que podem usufruir de cada um deles de acordo com a sua vontade e na hora combinada. Essa organização parte do princípio de que os livros e brinquedos podem ficar na altura das crianças, para que se sirvam, explorem e aprendam a usá-los no dia a dia.

Deixamos tudo exposto e fazemos isso propositalmente. É uma escolha pedagógica e intencional. Assim, compartilhamos com as crianças o cuidado que temos com a sala, e as ensinamos onde guardamos as coisas e de que maneira. Damos a elas a oportunidade de participar de todo o processo educativo: preparar a brincadeira, brincar e guardar. 

Para nós, a sala de aula é uma importante aliada na construção do conhecimento, na formação do sujeito e na constituição do grupo. Acreditamos que investir na organização de uma sala de aula é parte da grandiosa responsabilidade que o professor tem, pois ele educa o tempo todo – sendo modelo e revelando nossas escolhas pedagógicas. Por isso, considerar a sala de aula como um importante componente pedagógico é crucial quando pensamos em uma educação de qualidade.

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