A memória também educa: jovens conhecem a história das favelas no museu

Paraisópolis, a favela mais populosa de São Paulo, teve sua história apagada ou pouco registrada por muitas gerações, realidade compartilhada por diversos territórios periféricos. Muitas das pessoas que ajudaram a construir essa comunidade permaneceram anônimas ao longo do tempo, sem que suas trajetórias fossem reconhecidas ou preservadas.

Com o fortalecimento da comunicação comunitária, da memória local e do jornalismo produzido nos territórios, esses marcos passam a ser registrados, valorizados e transmitidos para as próximas gerações.

Preservar a memória é um exercício fundamental para compreender quem somos, de onde viemos e quais caminhos nos trouxeram até aqui. Conhecer a história do território fortalece a identidade coletiva e amplia a compreensão sobre as desigualdades e transformações que moldaram a cidade. Quando uma comunidade conhece sua própria trajetória, ela também fortalece seu senso de pertencimento e sua capacidade de projetar futuros.

Foi a partir dessa perspectiva que o Pró, por meio de recursos da Lei Rouanet, proporcionou aos jovens do Pró Jovens uma visita ao Museu das Favelas, localizado no centro de São Paulo. Inaugurado em 2021, o espaço reúne obras de artistas periféricos, exposições, encontros, cursos e diversas ações voltadas para a valorização das culturas das favelas brasileiras.

Durante a visita, os jovens puderam conhecer não apenas o acervo do museu, mas também refletir sobre a história do próprio centro da cidade, construído por populações negras que, ao longo do tempo, foram afastadas desses espaços por processos de gentrificação e racismo. A experiência permitiu conectar passado e presente, compreendendo como a formação da cidade está diretamente ligada às histórias das populações periféricas.

Guiados por um dos colaboradores do museu, os jovens percorreram a exposição principal, Sobre Vivências. A mostra propõe uma imersão nas múltiplas dimensões da vida nas favelas brasileiras, desde sua formação histórica até as manifestações culturais e artísticas contemporâneas. 

Ao longo do percurso, os jovens encontraram fotografias, objetos, registros históricos e expressões culturais que dialogavam diretamente com suas próprias vivências. As imagens das quebradas, as referências ao funk, os adereços de carnaval, os símbolos religiosos e os elementos presentes no cotidiano das periferias despertaram identificação imediata entre os participantes.

Uma das obras que mais chamou a atenção retratava uma pessoa idosa ao lado de uma criança. Ao observá-la, uma das jovens comentou que não tinha como olhar para aquela imagem sem se lembrar da própria avó. Em diferentes momentos da visita, as obras serviram como ponto de partida para lembranças, conversas e reflexões sobre família, território e pertencimento.

Mais do que conhecer a história das favelas, os jovens puderam reconhecer suas próprias histórias dentro do museu. A experiência reforçou a compreensão de que a memória das periferias não está apenas nos livros, mas também nas pessoas, nos afetos, nas manifestações culturais e nos modos de viver que continuam sendo construídos diariamente nos territórios.

Para Gabriel José, educador do Pró Jovens, experiências como essa ampliam a compreensão dos jovens sobre suas próprias origens. “Na visita, eles puderam compreender que a favela não existe por acaso, ela tem uma história constituída por inúmeras figuras”, comenta.

A jovem Heloisa Santos também encontrou conexões entre sua realidade e as narrativas apresentadas. Ao reconhecer referências ao movimento funk e a elementos presentes em Paraisópolis, sentiu-se representada pelas histórias, imagens e vivências compartilhadas no espaço.

O acesso a equipamentos culturais ainda é um desafio para parte significativa da população periférica. Uma pesquisa realizada pelo Museu das Favelas identificou que 38% dos paulistanos que vivem nas periferias visitam museus, no máximo, uma vez por ano, enquanto apenas 5% afirmam frequentar esses espaços com frequência. Os dados revelam que o acesso à cultura ainda não é uma realidade cotidiana para grande parte da população.

Nesse contexto, o trabalho do Pró também é incentivar o acesso à cultura como um direito. Visitas como essa ampliam repertórios, estimulam a curiosidade, fortalecem o senso crítico e aproximam os jovens de espaços que, muitas vezes, parecem distantes de sua realidade. O museu se torna um lugar de leitura da memória, de compartilhamento de experiências, de produção de conhecimento e de encontro com diferentes formas de expressão.

Ir ao museu é uma experiência educativa porque convida à reflexão, ao diálogo e à construção de novas perspectivas sobre o mundo. Ao entrar em contato com obras, fotografias, objetos e relatos, os jovens não apenas aprendem sobre o passado, mas também compreendem seu papel no presente e sua capacidade de transformar o futuro. Reconhecer-se como parte da história das favelas é entender que suas vivências, seus territórios e suas trajetórias também produzem memória, conhecimento e cultura.

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Se o título te chamou atenção, te convido a continuar lendo para ver que, se a gente se mexer, isso pode se tornar real.