Conseguir estar alinhado com uma equipe de mais de 70 colaboradores é, convenhamos, uma tarefa desafiadora. Para os gestores, fazer a amarração entre todos não é simples, já que, no dia a dia, cada colaborador e suas respectivas áreas vão planejando e executando tarefas. Cada programa atua junto aos atendidos do Pró com públicos variados, crianças, adolescentes e jovens.
Mas as férias oferecem um pequeno respiro para avaliarmos e, principalmente, para compartilhar o que foi feito ao longo de um semestre. Pensando nisso, o Pró, junto com a equipe pedagógica, realizou o I Seminário de Boas Práticas do Pró: por uma educação antirracista, um encontro marcado por muitas trocas, escuta e visibilidade do trabalho de cada colaborador e equipe. Mas vamos lá, quero compartilhar com você como foi essa imersão.
Pró Jovens
O evento, realizado no dia 30 de julho, reuniu toda a equipe do Pró. Iniciamos com a apresentação do Pró Jovens, programa que atende jovens de 14 a 19 anos, conduzida pela educadora Viviane Santos, que compartilhou a experiência dos alunos na produção de suas primeiras autobiografias — um espaço de autoconhecimento e criatividade. As autobiografias foram construídas em diversos formatos, como cordel, texto e fotografia.
Viviane explicou que a proposta se inspirou no conceito de “escrevivência”, da autora Conceição Evaristo, que defende que a escrita nasce da vivência coletiva, afinal, mesmo ao narrar a própria história, ninguém vive só. A diversidade de formatos também teve como intenção quebrar o preconceito linguístico. Alguns jovens enfrentaram dificuldades no início, mas essas foram acolhidas e superadas ao longo do processo. O resultado foi tocante. Viviane contou que leu cada autobiografia com respeito e cuidado, e que o processo despertou muitas sensibilidades, além de promover uma escuta coletiva. A autobiografia tornou-se, assim, um espaço para revisitar a própria história, e também a história do grupo.
Pró Ler & Brincar
Na sequência, tivemos a apresentação do Pró Ler & Brincar, com Mônica Andrade e Milena Luz, que compartilharam a vivência das crianças de 4 a 7 anos na escolha do nome de suas salas. Especificamente, falaram sobre a sala Aqualtune, batizada em homenagem à princesa‑guerreira do Reino do Congo, estrategista que liderou um dos principais quilombo dos Palmares e avó de Zumbi dos Palmares.
Para chegar a essa escolha, as crianças realizaram diversas atividades de reconhecimento de suas identidades: desenharam seus cabelos, olhos, bocas, observaram seus RGs e refletiram sobre o que é identidade. Algumas respostas das crianças foram: “é uma coisa de vestir” e “é uma coisa que diz da pessoa”.
Depois, conheceram figuras negras e indígenas como Mae Jemison, a primeira afro-americana a ir para o espaço, e Sônia Guajajara, liderança indígena. Mas quem mais encantou as crianças foi Aqualtune. Após uma votação, ela foi escolhida para nomear a sala.
A equipe também trabalhou com a árvore genealógica de Aqualtune, onde as crianças descobriram seu neto, Zumbi dos Palmares. Um boneco negro de pano, nomeado Zumbi, passou a fazer parte da rotina das crianças, sendo levado para casa nos finais de semana. No entanto, alguns pais demonstraram resistência ao nome. Diante disso, as educadoras iniciaram um diálogo com as famílias, explicando quem foi Zumbi dos Palmares e sua importância histórica. Com o tempo, os pais passaram a compreender e aceitar o boneco, reconhecendo a importância do trabalho educativo também junto às famílias.
Biblioteca do Pró
Em seguida, os mediadores de leitura da biblioteca do Pró, Kethully Luanda e Hugo Pires, compartilharam o cuidadoso trabalho de curadoria de livros. Foi surpreendente conhecer a profundidade desse processo, marcado por escuta, análise e sensibilidade.
Uma frase marcante citada durante a apresentação foi:
“Se o livro é um direito humano, um bom livro não pode ferir ninguém.” — Ananda Luz
Foram apresentados os critérios da curadoria, que envolvem análise de texto, gráficos, ilustrações e abordagem temática, sempre em diálogo com a diversidade e as infâncias. Há um olhar atento para diversidade de temas, formatos, gêneros, regiões e representações.
Livros considerados problemáticos, que apresentam estereótipos, apagamento de identidades, machismo, ou reduzem a infância são excluídos, pois violam os valores do Pró. O trabalho é contínuo, com revisões frequentes do acervo.
Um comentário muito bonito de uma colaboradora após essa apresentação foi:
“Às vezes achamos que na biblioteca só há alguém para atender ou registrar o livro, mas, na verdade, se a curadoria escuta o leitor, é o mesmo que o Pró está convidando a dançar.”
Pró Ler e Brincar nas Escolas
Encerramos com a apresentação do Pró Ler e Brincar nas Escolas, onde jovens mediadores compartilham experiências levadas às aulas em escolas parceiras. Um dos destaques foi o trabalho sobre turbantes africanos, símbolo de identidade, resistência e status social.
Assistimos a vídeos que mostraram como o turbante é fortemente ligado à trajetória das mulheres negras, no trabalho, na ancestralidade. A apresentação terminou com uma oficina de turbantes com todos os participantes.
E, como não poderia faltar, finalizamos com uma refeição deliciosa, porque comer é também compartilhar e esse foi o espírito do I Seminário de Boas Práticas do Pró.